sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Por que as mães morrem?


O poeta Carlos Drummond, em seu poema Para sempre, pergunta intrigante: Por que Deus permite que as mães vão se embora? Tal qual o poeta, muitos repetem a mesma pergunta que ecoa..., simplesmente ecoa...
O real assustador é que a hora chega e, com a realidade desnudada, a sensação de abandono, a falta de chão, é tal qual o momento da separação do seio-alimentador dos primeiros tempos de vida.
Mas, após a separação – fosse para receber um irmão, novo titular do leite natural, a mãe ali estava, para criar mais um filho, com amor infinito. Ou mesmo quando era tempo de escola, aos sete anos, uma nova ruptura. Como o sinal da aula, a mãe era presente para levar ao colégio, para brigar na escola contra todos os perigos possíveis a seu bem mais precioso.
Na juventude, outra separação: ganhava-se a rua, os amigos contra o sono perdido. De volta a casa, a que hora fosse, a mãe bem perto era acalanto para perdas, danos ou porres homéricos.
Ao ingressar no mundo do trabalho, outro corte: mas a roupa cuidada, a chamada matinal, as refeições, os bons conselhos e a torcida para que o melhor filho do mundo fosse o melhor profissional, era presente materno vivo.
O casamento: um novo rompimento. Tempo depois, sua presença no papel de avó proclamava que a vida se recicla e ressurge especialista na função de zelar, de proteger e de amar mais gente.
Porém, sem esgotar o potencial de amar, um dia, as mães partem. Retiram-se de cena. Deixam-nos. Travados, disfarçamo-nos, como crianças, a perguntar: – por que está fria, mãe? Por que cerrou seus olhos? Mas, parafraseando Guimarães Rosa, não morrem: ficam encantadas!
13/04/2009

Cântico de Liberdade


Transporto-me ao ano de 2004. Um bom momento a recordar. Compus o júri do I Concurso Reescrevendo o futuro: cidadania hoje para viver melhor o futuro, na etapa regional, desenvolvido pela Secretaria de Administração Penitenciária paulista, envolvendo mulheres presas. O evento, por seus objetivos, teve repercussão internacional.
E se, viver é muito perigoso, segundo Guimarães Rosa, viver é também afinar um instrumento de dentro pra fora e de fora pra dentro, dizem os versos de Walter Franco. Foi o que presenciei nas modalidades abrangidas pelo certame: prosa, verso, estética, simpatia. Por que não afinar o instrumento, mesmo privado da liberdade?
Uma noite em que o sonho, a crença e a criação daquelas mulheres costuravam um destino diferente, ao sonhar pela liberdade ainda ausente, à época. Teciam o sonho de ser livre nas prosas e versos marcados pela saudade de um tempo livre. Com palavras soltas, expressavam a memória dos braços não abraçados, dos beijos não dados, do filho distante, num eu-lírico afinado com a nostalgia e a esperança.
A beleza e a simpatia, apesar do nervosismo, da ansiedade, e muito de emoção, também encheram de futuro as candidatas. A noite do evento vestia de princesas a beleza de mulheres, prisioneiras no corpo, soltas, porém a escritas e passos que lhe permitiam desenho um futuro melhor.
Ações educativas exigem constância. Seus resultados podem não vicejar de imediato. Educação que liberta é tomar a pessoa como centro, fazê-la afinar seu instrumento, despertar sua potencialidade.
12/05/2009

Notícia de jornal


Há dias me vem à memória o samba cantando por Chico Buarque sobre o final da história de amor de Joana de Tal com um tal João. Semelhante às tragédias da vida real, Joana quis dar cabo da vida; não conseguiu. Medicada, de volta para a casa, ela se pega sem lar, sem amor. É apenas alguém que errou na dose, errou de João. Ninguém notou, nem morou na dor que era seu mal.
Joana, a mulata errante, sem João, Pessoas de Tal, moradores de barracos humildes, anônimos, vítimas de amores desfeitos, logo, sem jeito, na cena confirmam o refrão-conclusão da música: “a dor da gente não sai no jornal”.
Como tantos outros cidadãos, suas histórias, seus medos, suas perdas e seus danos, a quem interessa a dor de Joana de Tal? O que fazer com a imensidão de encontros e desencontros que assolam alguns ali, devassam tantos acolá? Assim como a história de Joana e de João, melhor não escrever, cantá-la, apenas em versos e acordes possíveis.
E por que não escrever as histórias ricas de vida? Talvez porque dê trabalho, ou pela dificuldade em lidar com elas. Podem confundir, já que são histórias não ensinadas na escola, nem nas faculdades. Os “causos” dos barracos, das vilas, dos engenhos, do mato, suas cores e dores, que deles se encarreguem poetas, seresteiros e os embalem as cantigas e as rodas de samba, em noites de desabafo.
De fato, dores de toda a gente como Joana, não têm vozes, apesar dos gritos e gemidos; não saem, pois, no jornal. Expressam-nas os versos, como os que compõem a música A massa: “a dor da gente é dor de menino acanhado, menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar”.
08/06/2009

A lista


Uma música, não muito nova, mas bem atual, de Oswaldo Montenegro, tem o mesmo título deste texto. Um recado interessante, certamente compõe o pano de fundo do que o compositor coloca em seus versos. A canção remete à colagem do que compõem histórias de vida: amigos, conquistas, sonhos, mistérios, mentiras, perdas e danos. Enfim, coisas da vida.
Dessas que passam e nem sempre são percebidas com a ligeireza impressa pelo alucinante ritmo de viver. Quando se dá conta, é preciso fazer uma lista do que nem é mais. Talvez, apenas amontoados de coisas, para uma possível seleção.
Ao se falar em lista, por que não revisar o tema, já que o ano novo ainda inspira por rumos e roteiros a traçar, apesar de toda a incerteza de viver? A elas, pois.
Listar os livros lidos, as mensagens deles extraídas, e, em especial, aqueles que, fechados, esperam que as palavras do autor sejam desveladas, discutidas, debatidas, à caça de ressignificação.
Outra lista possível: das enunciações negativas com as quais se costuma – mesmo sob a inocente aparência do “nada a ver”, magoar pessoas, pelo simples fato de elas representarem, por exemplo, a gestão de um bem público. E, é claro, refletir e, se possível, reconstruir trajetos para tornar ditoso o bem comum.
Listar, ainda, as promessas feitas sob a forma de ameaça-desabafo, com o objetivo de inferiorizar os semelhantes, como se todo o poder do mundo coubesse, muitas vezes, em arroubos de “ganhar no grito” simplesmente, como desejo de marcar território num espaço em que o coletivo é ignorado. Pergunta-se: fazer o quê dessa lista?
Fazer, enfim, uma lista de coisas simples, que permita viver e bem viver preferencialmente!
22/06/2009

Brincadeiras: jogos e jogados


Longe está o tempo da bolinha de gude, do pique, das peladas nas ruas (entenda-se futebol) e outras aventuras que povoaram o mundo infantil.
Os dias de primavera nas tardes fagueiras dos bosques, a matinha peculiar de cada cidade onde as crianças, voavam de cipó a cipó, numa grande concentração de Tarzans ficaram entre memórias e gibis, histórias de vida tecidas pelos então pequenos heróis.
Éramos cowboys, índios, mocinhos ou bandidos; apenas isso. E valia o brincar até quando a tarde morria e nos lembrávamos, com frio na barriga e com um gosto de transgressão, dos ensinamentos dos pais sobre os perigos do nadar às escondidas  dos mergulhos não autorizados nos córregos da cidade – o Poção, lembre-se, era o pânico dos pais - mesmo assim, a gente arriscava e o fazia, para tomar um gole de aventura e de felicidade.
Os carrinhos de rolimã rasgavam ruelas, ladeiras, calçadas: as disputas desenfreadas, quase sempre, terminavam até mesmo na alegria dos joelhos ralados.    
Os terrenos baldios não tinham o ar de abandono dos de hoje. Eram territórios de jogadores de peões de madeira, do esconde-esconde, do pega-pega, do taco, ou “bete”, aquele mesmo das vidraças estilhaçadas... afinal, eram coisas de crianças.
Vida controversa! E lá fora, distante, fria, perigosa ficou a rua dos meninos, sem eles. O brincar infantil da atualidade já integrou a era digital: celulares, câmeras, players de MP 10 (e sabe-se lá a que número se chegará), jogos de luta, de guerra também furtam a infância. Um apelo tecnológico assustador. Uma roda viva aprisionadora de mentes, sem cabanas, nem cavernas, ou forte apache. Novos jogos em vidas jogadas, talvez, vidas de faça-de-conta.
17/01;2011

EaD - a bola da vez


Os recursos tecnológicos aplicados à educação têm sido tomados como magia que pousa sobre a escola. De repente, as mídias em educação parecem se configurar como um fenômeno em separado do que já se fazia na educação escolar. Viveríamos um antropofagismo pedagógico, simplesmente?
Apesar das profecias tecnológicas, é evidente que para subsidiar as boas práticas em projetos de Educação a Distância, a existência de um Projeto Político Pedagógico – tomado como uma proposta de ação em bases realistas – pode ser o referencial de qualidade, norte de toda a empreitada, numa época em que ensinar e aprender exige muito mais flexibilidade: seja de tempo, de espaço, de indivíduo, de grupo etc.
Num país marcado por tantos contrastes, a Educação a Distância (EaD) se apresenta como um paradigma educacional como forma de ampliar a escolaridade e a oportunidade de atualização a tantos brasileiros, alijados do processo, frente aos compromissos presentes nas agendas educacionais.
Todavia, é preciso atentar-se a um requisito importante: qualidade. Esse deve ser o mote principal às equipes gestoras de um programa de EaD. Isso porque se trata de qualificação humana e não educação em forma de discriminação positiva àqueles que não tiveram oportunidades de ingresso e acesso ao mundo letrado.
Observadas as dimensões necessárias aos cursos a distância, é de se crer que os objetivos do MEC frente à criação do Sistema Universidade Aberta do Brasil, possam potencializar novos conhecimentos, com o forte apoio dos recursos tecnológicos, à medida que, ao encurtar distâncias, ampliem-se as idéias.
27/10/2008

Dez anos depois: outros cliques. 28/12/2018

Natal


Mais um ano, mais uma celebração... e, de repente, a constatação pelo clima, pelos enfeites, pelas festas envolventes, pelo apelo comercial, pelas luzes, bolas, festões, brilhos, de que é, enfim, o Natal.
E o que é Natal, mesmo?  Algumas definições: Capital do estado do Rio Grande do Norte; significa o dia do nascimento de alguém e, a solenidade cristã na qual se comemora o nascimento de Jesus Cristo. No enfoque capitalista, é o período do consumo, gasto para muitos, lucro para alguns.
Com efeito, não há como ignorar a abrangência, a universalidade, o calor emanado da festa de Natal, como uma corrente em forma de luzes e atrai, arrebata, e nos faz – ainda que por breves momentos – mais humanos, mais crentes na vida, nas pessoas e na felicidade de uma pequena luz a piscar ou deixar de fazê-lo, num pinheirinho natalino.
Embalados com o final de ano, de ciclo e também de vida – uma espécie de balanço do que se fez e do que se deixou de fazer - as pessoas se pegam assim com o espírito de papai Noel e passam a exalar do profundo d’alma um pouco do ouro, da mirra e do incenso que todos carregam. E, num instante mágico, fazem suas entregas.
A alegria da festa natalina parece formatar nas pessoas um jeito novo de viver e de ser, como se a vida, reinventada, permitisse uma interação total entre mortais.
Como a caminhada dos três reis magos, desejável seria que a alma humana se deixasse guiar, ao longo de dias, meses e anos, por esse espírito de saudação, de doação, de perdão e de vida e, a cada passo dado, badalar os sinos, para espalhar a boa notícia: o filho de Deus, mesmo que uns não queiram, nasce e renasce, no coração das pessoas.  Daí, sim, perceber e dizer: então, Feliz Natal!
Depois do Natal, que valha o exercício a se praticar em todos os dias do novo ano, para, enfim, o dia nascer feliz, sorridente, alegre tornando possível, inclusive as segundas-feiras mais preguiçosas, retomada do trabalho e da vida que segue seu curso num eterno Natal.
24/12/2010