sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Agulha na carne


Um canal fechado de TV produziu, recentemente, um programa, a exemplo do que, no final de 2007, um jornal da capital paulista veiculou, e desvelou a exploração do trabalhador boliviano, nas Oficinas de Costura, em São Paulo.
Os filhos do deserto, onde a terra esposa a luz, das tribos de homens nus, os guerreiros ousados, denunciados nos versos de Castro Alves, são agora os filhos dos Andes e chegam sem cruzar mares, sem navios, sem conforto e sem perspectiva, à Estação Rodoviária paulista, e atualizam a versão dos navios negreiros de outrora. Surgem as novas senzalas.
Clandestinos, ao entrarem no país, “admitidos” por patrícios ou intermediários, por “bons ganhos” e com promessa de felicidade, os profissionais da agulha e linha, “acertam” seus contratos de trabalho, sem se dar conta das jornadas escorchantes de trabalho, do ingresso nos porões tecidos com retalhos descorados.
Passam, assim, a compor o cotidiano dos vieses de suas vidas já severinas, perdidas entre traçados, alinhavos, pontos a costurar peças que, juntas a essa realidade, as prendem nas Oficinas de Costura do Brás, Bom Retiro, Parí e adjacências, em troca de comida, moradia, ou, ainda, alguns centavos ao dia.
É notório que o fenômeno da globalização econômica provoca a migração. A desigualdade regional repete o movimento e faz deslocar pessoas em busca de melhor situação de vida.  É fato, também, que essa migração leva à exploração e à degradação humana.
Impossível aceitar a nova senzala. Impossível não se indignar ao saber que se produzem, no maior centro da moda do país, estação a estação, coleções e coleções, ainda que populares, que despem o direito da pessoa.

Abril 2013

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